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OPINIÃO

João Luiz Kohl Moreira

21/10/01


Nosso satélite, a Lua

Quando era garoto, ganhei de minha mãe um Livro da Juventude, uma espécie de almanaque-zine da época, opção de compra de uma das enciclopéidas que ela adquiriu visando facilitar minha formação, atitude, por sinal, bastante positivas pois tais aquisições geravam um grande efeito sobre mim. Tal livro ainda deve se encontrar em sua posse, pois deixei sob sua guarda a maioria daquilo que obtive em minha adolescência (bem materiais, bem entendido). Nesse Livro da Juventude lembro de ter lido uma historinha sobre uma princesinha que queria anexar a lua em seu pingente no pescoço. O que me divertiu foi a discussão dos sábios da corte para convencer o rei de que essa tarefa era impossível. É certo que a mensagem de tal conto era a astúcia do bobo da corte em ludibriar a princesinha e a resposta desta em reagir positivamente à constatação do engodo. Mas o que fez tal história se reter em minha memória foi a excitação diante da impossível tarefa de mostrar o óbvio a um incauto (no caso, o rei) quando não se tem domínio da maior parte do saber sobre uma questão. Refiro-me a essa quixotesca missão de provar à opinião e poder público do quanto nosso ofício é importante, quando nem nós, os cientistas, temos claro com o que estamos lidando. Existe, também, o lado do mistério, e tudo o que isso traz às nossas mentes. O mistério é como a escuridão, muitos se excitam, e alguns chegam ao pânico. Vale notar que eu mesmo tenho medo do escuro. Já o mistério me excita a ponto de me colocar em estado de graça.

Em nossa pequena história, os sábios da corte se dividem em explicar que a lua é de queijo e encheria o reino de ratos que poderiam atacar a princesa; que a lua é de prata e atrairia uma legião de ladrões, gatunos e outras pragas da humanidade; que a lua é tão grande que não caberia no quarto da princesa, mesmo sendo o quarto de dimensões muita acima do necessário para a princesinha ser feliz (era preciso uma boa dose de bajulação). O fato era que o rei percebia a ignorância dos sábios sobre o lua e teve a idéia de recorrer ao bobo buscando uma solução prática. Sábio rei. Oxalá contássemos sempre com estadistas assim. A ciência pode ser útil mas, via de regra, não pode dar a palavra final. Aqueles sábios, com toda a sua ciência, nunca se perguntaram sobre a real essência da lua. A lua, afinal, está tão perto, e tão presente...

Creio que a idéia que se tem da lua, além de, é claro, do prazer romântico de um namoro sob sua luz prateada, é de ser um astro mais que naturalmente integrado à querida terra. Por que haveria dúvidas quanto à sua origem, pergunta-se no senso comum. Os eclípses foram os primeiros objetos de pesquisa na astronomia. Os períodos dos eclípses foram um dos primeiros a serem descobertos, afora o dia, ano e estações. Até sob o ponto de vista do universo de Ptolomeu, era fácil conceber a lua passando na frente do sol, governada pelo "epiciclo lunar".

Muitas são as histórias contadas a respeito do que se acreditava ser a constituição da lua. É claro, muita gente pensou que a lua, dada a coloração de seu brilho, fosse mesmo feita de prata. Houve muitos que imaginaram as maiores riquezas esperando para serem exploradas. Teve a corrente que atribuia à corrida espacial nada mais do que a manifestação da sede capitalista pela exploração de terras impolutas da lua e planetas, com, talvez, o direito à exploração escrava de desavisados marcianos. Enfim, a lua deveria ser o objeto mais facilmente compreendido do espaço.

Essa imagem, contudo, não é o que se vê em alguns laboratórios onde encontramos gente pesquisando a respeito. À pergunta, como a lua veio parar aqui em nossa órbita, a resposta mais evidente é que ela foi, ou formada a partir do mesmo material que foi sendo aglutinado com o tempo para formar nosso planeta, ou foi capturada posteriormente. Não há uma explicação evidente para ambas as hipóteses. Se fôssemos nos fixar na primeira, será difícil explicar como foi que apareceu essa "assimetria" de um planeta como o nosso e um satélite dezenas de vezes menor. A única forma de se produzir isto é através de um "elemento pertubador". Algo influiu, definitivamente, na formação do sistema terra-lua para que as coisas terminassem como estão. Se isso realmente aconteceu, vem a pergunta: para onde foi esse tal "elemento pertubador"? Fugiu? Para onde? De que jeito?

A segunda hipótese seria mais factível. Para isso seria preciso que a lua fosse um "planetóide" vagando por aí, e por mecanismos de perturbação pelos grandes planetas, foi colocada na mesma órbita da terra, para, em seguida, ser capturada por esta. Esse é o único mecanismo de captura possível pois não podemos nos esquecer que se a lua viesse, como chamamos, em rota de colisão com a terra, ela seria catapultada da mesma forma que teria sido capturada, perdendo-se, asssim, novamente no espaço sideral.

De qualquer forma, saber do que a lua é feita é uma boa forma de saber como ela apareceu por aqui. Se a constituição química da lua fosse semelhante à da terra grande seria a probabilidade dela ter se originado por aqui mesmo. Já se ela for diferente, talvez se examinarmos a química dos asteróides, marte, e outros, alguma coisa nos dê a sugestão do lugar de onde ela veio. Foi justamente essa uma das missões dos astronautas americanos em 1969, na Apollo 11. Coletar material para análise posterior.

Isso foi feito e as primeiras análises mostraram, confirmado pelas missões que se seguiram, algo inesperado. Tudo parece ser proveniente de nossas imediações - exceptuando, é claro, o material orgânico e volátil - salvo que não há ferro! Ou se existe, é muito menos do que se esperava, considerando que a lua foi formada com o mesmo material que a terra. Mais uma vez, a tentativa de solução de um problema acrescenta mais problemas ainda. E a questão começou a pairar sobre as cabeças de nossos cientistas: "Como é que pode-se conceber a formação de um planetóide; do mesmo material que a terra; tão perto da terra; mas faltar ferro em seu interior"? Uma bolota de ferro até que cairia bem como elemento pertubador! Mas o que há é um vasto e estéril deserto. É areia, granito, alguma "sujeira", e só.

Desde meados da década de 70 Alastair W. Cameron tem trabalhado com a possibilidade da lua ser o resultado da formação de restos de uma tremenda colisão entre a terra e um planeta de cerca de 35% de sua massa. Desde então, essa é a teoria mais aceita. Esse astrônomo americano é um teórico da formação de estrelas e modelos de fusão nuclear no interior dessas estrelas. É dono de uma fantástica capacidade de programação em cálculo numérico. Usou esses seus atributos para dar sua cooperação na teoria da formação da lua. Desenvolveu um programa de simulação bastante complexo para tal modelo. Muitos são aqueles que seguem sua sistemática, discípulos ou não.

Por outro lado, sempre houve um pequeno debate sobre o "planeta faltante" entre a terra e marte, cuja existência era, teoricamente, esperada. Muito mais fácil ainda, de se encontrar mecanismos de perturbação que tiraram esse planeta de sua órbita e colocá-lo em colisão com a terra. Por esta teoria, a terra tinha, anteriormente, um dia que durava 5 horas, apenas. Originada dessa forma, a composição da lua se ajusta perfeitamente ao esperado. Havia, no entanto, algumas dificuldades para serem vencidas. Primeiramente, a terra teria perdido muito material e não se conhecia uma forma de nosso planeta ter recuperado esse material a ponto de se encontrar no estado atual. A segunda dificuldade era que tal impacto teria de ter acontecido há 4.5 bilhões de anos, ou seja, num tempo em que ela ainda estava se formando. Não seria possível haver uma colisão com um planeta em formação a partir de um cinturão de poeira em torno do sol, e ainda por cima, perder mais massa, que mesmo com a terra formada, é difícil explicar como ela teria recuperado.

Tais dificuldades foram finalmente vencidas em um trabalho publicado na revista Nature em agosto passado. Os também americanos Robin M. Canup e Erik Asphaug conseguiram explicar todo o processo sem artificialismos ou furadas, simplesmente ajustando os parâmetros de cálculo, agora de posse de computadores muito mais potentes. Conseguiram tal proeza através do aumento da resolução de cálculo.