E a Ficção (outra vez) se aproxima da Realidade

 

João Luiz Kohl Moreira – COAA

 

 

Cai a Noite” é um conto de Isaak Asimov, escrito em 1965 considerado um dos melhores de ficção científica da História. Nele, vive-se num planeta que simplesmente orbita seis sóis, de tal forma que noite é um fato raro que acontece uma vez a cada cerca de 2.000 anos, que dura alguns minutos, tempo exato de um eclipse por uma lua desse planeta.

Asimov explora a situação de uma civilização que não tem acesso ao céu noturno. Por exemplo, nós, aqui na Terra, sabemos da Lei da Gravitação Universal de Newton porque astrônomos, por séculos, observaram movimento de planetas durante a noite.

O reconhecimento que não somos um ponto central e privilegiado do universo vem, também, do reconhecimento de outros sóis disponíveis à nossa observação durante o céu noturno. Para isso inventamos equipamentos de sofisticação crescente durante a evolução da humanidade.

O momento que Asimov nos coloca nesse planeta, Lagash, é nas vésperas desse eclipse. Astrônomos, mais precisamente, “heliólogos”, pois os únicos astros disponíveis eram os sóis e as luas, estão excitados, pois a lei de Newton tinha acabado de ser deduzida, depois de séculos de observação do movimento dos sóis. Com base nessa lei, eles conseguem prever o acontecimento desse eclipse. Acreditavam eles que, com um pouco de sorte e muita expertesa, seriam capazes de registrar algum astro distante na noite que se faria.

Havia, porém, um problema. E vamos deixar ao leitor a tarefa de sabê-lo ao ler o conto.

É fato que um sistema de seis sóis é uma improbabilidade da natureza. O conto foi escrito uma década antes dos mecânicos celestes terrestres começarem a se dar conta que sistemas com mais de dois corpos de massas comparáveis são altamente instáveis. A descoberta de um sistema de seis sóis deixaria os astrônomos terrestres muito mais excitados que os de Lagash, quando descobriram a lei de Newton.

Mesmo assim, não deixa de povoar nossa imaginação a descoberta de uma equipe liderado por Elliott Horsh, da Universidade Estadual de Connecticut, EUA. Eles selecionaram um grupo de centenas de estrelas candidatas a possuirem planetas com dados obtidos do telescópio espacial Kepler, concebido especialmente para encontrar planetas extra-solares, ou exoplanetas, como são conhecidos no meio. Dessas, eles encontraram umas 50 como sendo, na verdade, sistemas binários, ou seja, compostos de duas estrelas.

Difícil é determinar a qual delas o planetas pertencem. Foram constatados sistemas com pelo menos um planeta em que as estrelas estão tão próximas que é difícil imaginar um planeta orbitando uma delas, ou ambas, de forma estável.

Seja como for, talvez não seja tão exótico pensar numa civilização vivendo num desses planetas em órbitas estranhas, onde, na verdade, não exista noite, ou ela é muito rara. Pensemos aqui na Terra. Se fizermos da Lua um “outro sol”, então, noite mesmo só haveria uma vez por mês. Um sistema em que o planeta estaria num dos “pontos de Lagrange”, pontos onde, dinamicamente, a atração gravitacional total é nula, por exemplo, entre os dois sóis, e com rotação numa espécie de ressonância com esse movimento, faria da noite um fenômeno pouco frequente. Será que as pessoas de lá se comportariam como as que Asimov imaginou em seu conto? Muito se diz que o que se imagina na ficção científica é realizado mais tarde na vida real (vamos relativizar um pouco isso, certo?).

Deixemos, então, nossa imaginação criar asas para antecipar o que poderemos encontrar no futuro: uma comunicação com Lagash?