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OPINIÃO

João Luiz Kohl Moreira

15/10/01


Observatório Nacional faz 174 anos

Hoje é dia do aniversário do ON. Muito embora muitos associem o centenário com a "velho" ou "gasto", a verdade é que, bem ou mal o Observatório Nacional tem mostrado, ao longo de sua história, resistência e abnegação típica dos sobreviventes.

Eu estive trabalhando no Observatório de Meudon, França, por quatro anos. Esse instituto se situa no parque da cidade de Meudon, na aristocrática periferia ocidental de Paris. É o ponto mais alto da cidade (quantas vezes amaldiçoei a subida, desde a estação de trem que vinha de Montparnasse), a vista da vila e de Paris é explendida. O prédio central deste Observatório é o que sobrou do castelo construido por Luís XIV e que pegou fogo algumas décadas depois da Revolução. A cantina que serve cerca de 800 refeições por dia, fica ao lado de um lago, que recentemente, quando ainda eu estava lá, no final da década de 80, descobriu-se que servia como cisterna para o Palácio de Versalhes, a alguns 30 km ou mais de distância, com galerias e tudo o mais quase intactas. O Conselho Científico do Observatório de Meudon nomeia, de dois em dois anos, um pesquisador responsável pelo patrimônio. O da minha época era o meu amigo Loïc Vapillon que, por ser o responsável, tudo acompanhou e me contou a respeito.

Como pesquisador visitante do Observatório de Meudon, e por ser este um "setor" do Observatório de Paris, eu tinha livre acesso aos dois. De tempos em tempos, por morar perto deste último, íamos eu e minha esposa, Sonia, almoçar em sua cantinha que, como o de Meudon, oferecia um "bandejão" à francesa. Vocês podem imaginar a qualidade. Vez ou outra, aproveitávamos e visitávamos o Museu do Observatório de Paris. Lá, vimos a primeira lente de Fresnel (hoje, parte indefectível dos projetores de transparências), fac-símile dos primeiros trabalhos de Cassini sobre os anéis de saturno, etc. Lembro-me que uma vez andamos de mãos dadas ao longo da antiga linha do meridiano "0", que cruzava o jardim em frente do prédio principal. Hoje, com a hegemonia da Inglaterra, tal linha passou para o Observatório de Greenwich.

Tudo isso para dizer que o que me tocava na França, e para ser sincero muitas vezes esse meu sentimento transladava-se para a irritação, é o apreço que o sistema francês tem pela tradição. Apesar de muitas vezes a história não demonstrar algo que inspire orgulho, os fatos históricos, as pessoas históricas, as datas têm um significado especial para o povo francês. A verdade é que o que me fazia espécie era a empáfia que o francês demonstra diante de sua história e creio que nesse ponto o que me assaltava era a pura inveja e, talvez, a vergonha.

A vergonha é o que eu sentiria se tivesse que contar, hoje, a um francês, como o Observatório Nacional foi tratado desde a sua fundação, em ato de D. Pedro I, em 15 de outubro de 1827. Não que o O.N.não tenha passagens remarcáveis. Certa vez, em visita ao O.N. por três meses, o físico francês Jean Eisenstadt espantou-se: - Então Emmanuel Liais foi diretor do Observatório Nacional? - Foi. E foi ele, talvez, um dos mais importantes diretores, de cujo trabalho e discípulos o O.N. pode manter-se vivo em momentos muito difíceis. - Ora, vejam! Eu estava procurando, justamente, o que ele fez durante esse período e não conseguir descobrir o que era! Ele veio ao Brasil, e foi diretor do O.N.! - O Prof. Eisenstadt ficou muito agradecido com aquela informação. Por um bom tempo ainda mantivemos correspondência. O último contato foi quando ele me deu parte do nascimento de seu filho, o que lhe felicitei.

Nem o porte científico de um Emmanuel Liais, astrônomo francês dos mais respeitados, membro da Academia Francesa, autor de trabalhos importantes em sua época, salvou o Observatório Nacional da calúnia, dos conchavos acadêmicos, das tentativas de golpe, dos movimentos pela sua extinção. O Prof. Liais enfrentou a fúria dos professores da Escola Politécnica, na época, uma escola militar, a exemplo de seu homônimo francês. Tomado pelo "positivismo", esse corpo de professores se bateu contra o Prof. Liais, como se ele fosse um verdadeiro reacionário. Logo ele que vinha lá do nascedouro do positivismo, ele que foi conteporâneo e colega de Auguste Comte na Academia! Por sua honestidade acadêmica, E. Liais era irredutível em denunciar os confusos professores da Escola Politécnica que eles "não tinham entendido nada do positivismo". Por causa dessa contenda, o Observatório Nacional foi muito prejudicado, graças à influência política dos militares. Não fosse a força intelectual de E. Liais e a simpatia do Imperador Pedro II pela astronomia, o O.N. teria dado adeus à existência já no século XIX.

Essa simpatia do Imperador, por outro lado, quase custou ao Observatório (que tinha o termo "Imperial" em seu nome) a sua própria existência. Proclamada a República os antigos desafetos aliados aos republicanos de última hora, antigos anti-abolicionistas e uma imprensa marrom tentaram por todas as vias exitnguir o Observatório para "limpar todo o resíduo monarquista". Nos estertores do Império os jornais publicavam caricaturas que se mostravam o Imperador olhando o céu por uma luneta enquanto fatos graves ocorriam no país. O Observatório era um alvo fácil pois a associação que a opinião pública fazia do Imperador com o Observatório era muito grande. Uma vigorosa crítica chegou a ser veiculada por conta da doação da luneta do Imperador ao Observatório como exemplo de desperdício, malgrado a doação tivesse sido feita a partir dos bens particulares do Imperador. Diante deste quadro a habilidade do diretor à época, Luiz Crulz, belga de nascimento e discípulo de E. Liais, salvou o Observatório da extinção convencendo as autoridades da época a mudarem o nome da instituição para "limpar o resíduo monarquista". Assim o antigo Observatório Imperial passou a se chamar Observatório Nacional.

Curiosamente esse seu nome, hoje, tem aberto brechas para gente de todos os estirpes criticar e tirar proveito próprio. O Observatório Nacional era do Ministério da Agricultura, passando, posteriormente, para o Ministério da Educação e Cultura. Resgatar sua história é deparar com o exemplo mais profícuo do que hoje se denomina "encubador". Ainda no Ministério da Agricultura criou um serviço embrionário de meteorologia que, mais tarde, veio a se tornar Departamento de Meteorologia e, finalmente, no atual Instituto Nacional de Meteorologia. Até meados da década de 60, a previsão das marés era feita no O.N., cujo responsável, Domingos Costa, acionava a manivela de um "Previsor de Kelvin", uma engenhoca com 24 engrenagens independentes reproduzindo os termos da série de Fourier para as marés. Pelas minhas andanças no Brasil e exterior não vi nada igual em nosso território e nada melhor no mundo. A Marinha passou a se encarregar da previsão da maré nos diferentes pontos do Brasil a partir de 1966. Em meados da década de 70 já se servia de grandes máquinas de calcular.

Substituindo na direção do lendário Lélio Gama, Luiz Muniz Barreto, a partir do final da década de 60, empreendeu uma política de modernização do Observatório tentando seduzir jovens estudantes para as atividades que então o Observatório Nacional desenvolvia e para o qual foi criado: fornecer a hora oficial e desenvolver serviços de cartografia, mais tarde, geodesia (aliás, a cartografia era um dos pontos de conflito, desde o iníco, com o serviço de hidrografia do Exército). Nesse período foram atraídos os alunos do Prof. Barreto, Paulo M. Silva para o serviço da hora e Ronaldo de Freitas Mourão para a astronomia, seguidos de vários pesquisadores para as atividade de geofísica. Nessa época, final dos anos 60, o O.N. contava com vários estagiários e voluntários, destes últimos alguns militares aposentados, como o Brig. Sylvio Silva, carinhosamente referido como "Coronel". Homem metódico, militar nos hábitos, era figura ao mesmo tempo temida e querida. Muitos não suportavam o ar paternal que ele imprimia em suas longas explicações, na tentativa de transmitir seu saber. Convivi com ele desde minha contratação em 1o. de abril de 1977 (quando assinei cheguei a pensar que tudo não passava de brincadeira de alguns) até sua partida, magoado pela forma que lhe puseram fora de sua sala. Algum tempo depois visitou-me em meu novo escritório. Pelo seu aspecto, parecia encantado com a cortesia que lhe reservei. Tal tratamento já tinha se tornado raro por aqui.

Foi sob a direção de Muniz Barreto que o Observatório Nacional passou para a administração do CNPq, na época, orgão do Ministério do Planejamento. Dentro da política de modernização do Observatório (e também de prevenção contra sua extinção) muitos foram contratados, eu, mesmo, no bolo. O serviço da hora já tinha implantado um moderno sistema de relógios atômicos a césio. Muniz Barreto patrocinou a criação do "Observatório Astrofísico Brasileiro", um consórcio envolvendo institutos de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e o próprio O.N. Com ele adquiriu-se um telescópio de 1,60m de diâmetro da Perkin & Elmer, um dos maiores fabricantes de equipamentos de precisão, que fabricou a ótica do Telescópio Espacial Hubble, naquela época também um mero projeto. Não se sabia dos problemas óticos que aquele telescópio viria a ter, assim como o "problema" que tivemos aqui também. Mas, isso é uma outra história e fica para uma outra vez. O Observatório Astrofísico Brasileiro transformou-se no Laboratório Nacional de Astrofísica e tornou-se independente do O.N. em 1985 aproveitando-se de uma de suas inúmeras crises internas criada por interesses puramente pessoais.

Foi sob a administração de Muniz Barreto que o recém contratado, em 1976, Victor A. D'Ávila viria a trazer o astrolábio impessoal Danjon, de São Paulo. Essa transferência agitou as atividades de astrometria no O.N. e acabou viabilizando a minha própria contratação. Quando cheguei ao O.N. era sensível o conflito entre uma estrutura arcáica, cheia de vícios e a tentativa de se instaurar um ambiente moderno, mais condizente com os "modos operanti" das grandes instituições de ciência. Havia o pessoal da astrofísica que impulsionava essa mudança trazendo novos ares sob uma mentalidade acadêmica mais moderna.

Infelizmente aqueles que ingressaram posteriormente também trouxeram a arrogância e prepotência de quem acha que a ciência começa apenas quando o interesse lhe alcança, desprezando e menosprezando tudo o que é anterior. Logo aqueles que se formaram nesses centros que tanto prezam a tradição. Será que a eles não ocorre que o tratamento que reservam aos mais antigos será, com grande chance, aquele que lhes será reservado quando estiverm na mesma posição dos destronados? Será que não percebem que os modos despeitados com que tratam aqueles que não fazem parte de sua geração inauguram, assim, uma tradição perversa? Pois foi o que lhes aconteceu. A totalidade daqueles que tanto agrediram os mais velhos, sem perceberem que também agrediam a instituição, hoje são pessoas amarguradas, raivosas, queixando-se da falta de respeito, da falta de reconhecimento.

Aqui se passa justamente o contrário do que vi, daquila que era visível em Paris e Meudon. O Observatório Nacional faz 174 anos e com muito custo talvez chegue aos 175. Uma vez mais voluntariosos e irredutíveis cientistas se prestam a atacar o O.N. querendo lhe atribuir as estritas atribuições de sua fundação como pretexto para extinguir a pesquisa aqui desenvolvida. Sinal de desenvolvimento, dizia o sábio, é reconhecer as tradições de suas instituição apenas como velho e pueril. Esses arrogantes e voluntariosos novos cientistas sequer são capazes de reconhecer as tradições dos lugares que estiveram. Quantos, daqueles que estiveram em Paris, visitaram o museu do Observatório?

Em homenagem àqueles que lutaram para manter essa instituição viva, rendo aqui a lembrança daqueles que trabalharam pela construção do Círculo Meridiano Gautier, na década de 30 e que não puderam prosseguir nas pesquisas por causa da perseguição política do Estado Novo. Dos responsáveis pela aquisição da luneta foto-equatorial e que não puderam prosseguir no trabalho por falta de apoio material. Tivessem sucesso, o Brasil estaria entre os paises que participaram da campanha mundial que esquadrinhou o céu norte e sul, liderados pela Alemanha. Do funcionário Murilo, que por trinta anos, "acampado" no campus do O.N., zelou para que o serviço da hora não tivesse um furo sequer durante todo esse período. Do próprio "Coronel" que por anos a fio se prestou a um serviço voluntário. Do ex-navegador do Loyd Brasileiro, Gilberto, carinhosamente chamado de "Major" a emprestar sua experiência nos mares para as observações astrométricas. De todos os ex-funcionários e voluntários que deixaram suas marcas e espíritos em nossa instituição. Se continuarmos a existir, pessoal, que fique claro a todos que valeu a pena!