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OPINIĆO

Joćo Luiz Kohl Moreira

13/08/01


Arqueologia da Informática

Recentemente foi descoberto, por acaso, dentro de uma gaveta de arquivo esquecida em uma sala do Observatório Nacional, um punhado de cartões perfuráveis para computador. A descoberta provocou-me um duplo efeito: 1) uma grata lembrança e 2) uma inesperada sensação de não estranhesa. Em outras palavras, o segurar daquela maço de cartolina cor de laranja, cheio de números impressos enfileirados, alguns perfurados, não me trouxeram à mente a pergunta: "o que é isso?". Ao contrário, a retomada de contato com tais objetos reviveu-me antigos "tiques" da atividade, em épocas passadas: segurei o maço com cuidado para não embaralhar, ajustei-o para compactar o bloco e dispus o bloco com o cuidado de colocá-lo em frente a mim, com a "orelha" à minha esquerda, para cima.

O meu colega, autor do "achado" entre os pertences de seu companheiro de sala, aproveitou que este não estava presente e me convidou a ajudá-lo a "se livrar" daquelas "tralhas". - Vamos logo, antes que ele chegue! Vai ser o diabo convencê-lo a se livrar disto. - Aprendi então, que era mais fácil convencer o colega de que aquilo não prestava mais (não existem mais leitoras de cartão) se os objetos fossem dados como "perdidos". Esses tipos, na minha opinião, têm sua utilidade. Graças a eles, documentos preciosos são preservados. Instrumentos e artefatos são mantidos, quase intactos por anos a fio, e lá na frente, quando tais relíquias ganham interesse histórico, e nesses sujeitos que nos fiamos para encontrá-las.

Não é o que pensava meu colega ali presente. Muito embora um "admirador" da história e arqueologia, para ele, aqueles cartões significavam espaço ocupado, amontoado juntando poeira e, sobretudo, uma lembrança que lhe trazia a sensação de atraso tecnologico. Em se tratando de instituição pública, no Brasil, esse sentimento é compreensível. Somos obrigados a, constantemente, nos confrontarmos com nosso atraso, quando nossos concorrentes, nos países adiantados, têm à mão equipamentos de última geração, tinindo, cheirando a novo. É perfeitamente perdoável essa ogeriza pelo "antigo" que servem de espelho para nossas próprias frustrações. Mas, curiosamente, a mim, ao invés de desconforto, o sentimento foi de nostalgia.

Corria lá o ano de 1972 quando sentei-me pela primeira vez em uma carteira para estudar informática. Correção: a palavra "informática" não existia, ou não era usada. Para começar, o tema era tratado por "computação". Os leigos, metidos a eruditos, referiam-se a "cibernética". O meu curso, no terceiro período da faculdade (na época dizíamos primeiro semestre do 2o. ano), chamava-se Cálculo Numérico 1. Curso de computador, nesses tempos, só se justificava como aula "prática" de algo bem mais nobre: matemática aplicada. Tinha eu um livro do Milne, sobre cálculo numérico – talvez um dos melhores que já tenha tido – que não tinha uma menção sequer de programação. Meu trabalho era transformar os algorítmos ali expostos em algo que pudesse ser programável. Aprendi muito com isso.

Meu mestre de Cálculo Numérico 1, um "brasileiro" loiro, olhos azuis, 1,80m de altura chamado Maximilian Emil Hehl, era o paradigma da didática. Escrevia no quadro negro letras com o mesmo tipo da impressora IBM, do computador, esse um IBM 360/M, 32 Kbytes de memória, disco de 170 Kbytes: uma maravilha tecnológica, o máximo que se podia conceber, comprado especialmente para operar o acelerador "Pelletron", que também era o "máximo". Enfim, voltemos ao mestre "Max". Enquanto os outros profissionais de informática distinguiam a letra "O" do algarismo "0", quando escreviam seus programas nos formulários, fazendo um traço no "0" (ficava como a letra "phi" do alfabeto grego), o mestre Max desenhava o "0" redondo, escrevendo o "O" com traços retos, aparando os cantos, exatamente como a impressora do computador fazia. Cada aula era um "tratado" de programação. Todas as passagens eram detalhadas ao extremo, todas as perguntas eram respondidas por antecipação. Graças ao mestre Max a informática é o tema que mais domino. Sua primeira frase do curso, que ele repetiu em diversas oportunidades foi: - O computador é um perfeito idiota. Ele não faz nada que você não o ordene. - A segunda frase que ele também repetiu constantemente foi: - O computador não erra. Se erra ele avisa. E o erro sempre é conseqüência do que faz o programador. - Pobre mestre Max, é provável que ainda esteja vivo para ter conhecido os produtos da "era Microsoft", que tanto contradizem essas suas famosas frases...

De mais a mais, foi somente depois de quase um mes e meio de estudos intensos, discussões intermináveis, avisos repetidos, tivemos, nós alunos, a chance de nos sentarmos diante ... da perfuradora de cartões! Para produzirmos nosso primeiro "deck" de cartões. Isso depois de escrevermos a lápis, no fórmulário apropriado, o "programa", esse pretendendo calcular as raízes de uma equação do segundo grau, pela fórmula de Báscara. A perfuradora era uma máquina IBM, com um teclado azul, contendo apenas letras maiúsculas, os números e alguns sinais gráficos. Acentos, impensável. Cada cartão era uma linha de programação. Podíamos "programar" a perfuradora, perfurando um cartão, onde fazíamos a máquina "tabular" até a sétima coluna, onde iniciava a instrução FORTRAN (uma das três únicas linguagens de programação, além do COBOL e ASSEMBLER). Os mais espertos também programavam a perfuradora para "saltar" para o próximo cartão na 73a. coluna, pois as instruções FORTRAN eram reconhecidas somente nas 72 primeiras colunas do cartão. Os "profissionais" numeravam os cartões entre as colunas 73 e 80. Não vou entrar em detalhes daqueles que produziam listagens cheios de floreados, com títulos, sub-títulos, cabeçalhos e margens, tudo centrado no meio do formulário contínuo de 132 colunas. Uma beleza.

Recebíamos, cada aluno, um conjunto de 50 cartões e 5 cartões de "controle". Perfurávamos os cartões. A linha superior do cartão era reservada para a escrita humanamente compreensível. As doze linhas abaixo eram para a composição do código perfurado de cada caracter (neologismo anglicista, do termo character) em EBCDIC (pronuuncia-se "ê-bê-cê-dic"). Essa codificação é um antecedente do ASC-II, adotado como padrão pelo (American National of Standards Institut) e contra o qual a IBM lutou o quanto pode. Já este último foi substituido pelo UNICODE, com 65000 caracteres contra o qual a Microsoft combateu tanto com o seu ASC-II MS-extended. Os cinco cartões de controle tinham uma tarja vemelha para diferenciar dos outros e continham códigos secretos (não decodificados na linha superior). Cada um dava autorização para "rodarmos" o "job" uma vez. Terminados os cartões, esgotava-se o direito de submeter nosso programa ao "batch".

E o computador, como era? Pode perguntar o leitor atento. Pois bem, eu não sabia. Quando terminava de compor nosso programa, dirigíamo-nos a uma salinha, nos fundos do prédio do Pelletron, e depositávamos nosso "deck" em um escaninho e saíamos (era proibido permanecer na salinha depois do deck ser depositado). Então esperávamos umas duas horas e retornávamos à mesma salinha para pegarmos, tão rápido quanto possível, nossa listagem com os resultados. Quer saber? Quase nunca estava certo. Frequentemente gastávamos todos os nossos 5 cartões de controle sem obter o resultado desejado, seguido da incontornável nota baixa, quando da entrega do resultado ao monitor. O jeito era ir atrás daqueles afortunados que conseguiam economizar tais cartões. Felizmente era o meu caso, na maioria das vezes. Cedíamos nossas sobras aos desesperados programadores produzindo as famosas listagens floreadas, mas sem clemência dos monitores que pouco ligavam para as aparências. Era um tempo de solidariedade...

Mais tarde, subindo na hierarquia, já podia ficar em salas refrigeradas com dezenas de perfuradoras (os alunos de CalNum-I tinham de compartilhar uma), e aos escaninhos foi acrescentado um balcão com funcionários, alguns simpáticos, outros não, algumas gatinhas, outras não, a nos chamar pela sigla: - nosso "rebento" estava pronto. Naquela época eu já varava a noite trabalhando, como todos os meus companheiros da computação. Para mim, a atividade de "computeiro" era, eminentemente notívoga. Nas folgas, entre um e outro gole de café, entermeado por interjeições de espanto com a novíssima calculadora HP-25c (49 passos de programação), prevíamos que, no futuro, chegaríamos a ter um computador em casa! Para quê? - Ora, os computadores terão outras utilidades além da de calcular! - Dizíamos, duvidando de nós mesmos. Comunicação entre computadores? Internet? Jamais! Niinguém imaginava isso.

Hoje, quando mostro a meu filho um exemplar de um cartão, e ele toma alguns segundos para identificar e exclamar: - Um cartão! -, me vem a nostalgia daquelas madrugadas em claro. Recordar aquele sujeito que conseguiu, inadvertidamente, emitir uma instrução que fez o computador despejar todo conteúdo binário da memória em quilos de papel; ou aquele que mandou ler os dados na impressora e escrever na leitora de cartões, provocando "maluquices" do computador e que cujo erro só foi identificado em sonho, por uma técnica; enfim, tantas bobagens feitas e que contribuiram para a evolução desses seres que, não tenho duvida, irão substituir nossas conciências, um dia: os computadores. Como no filme "Matrix"? Talvez, mas sou um pouco mais otimista. Como o era, naquela época, quando leigos me perguntavam: o computador vai dominar o homem?

Será?