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OPINIĆO

Joćo Luiz Kohl Moreira

10/09/01


Exobiologia

A Exobiologia é a ciência que estuda as condições de surgimento da vida e a eventualidade da existência de vida extra-terrena. Travei contato com ela em setembro de 1988. Em um papo na cantina do Observatório de Meudon (alguns insistem em chamar "Observatoire de Paris – Section Meudon" mas eu prefiro o nome simples Meudon – um dia explico por que), conversando com o pessoal da planetologia do DESPA (Département des Recherches Spatiales, eu acho que já falei disso), puxei o assunto de vida extra-terrena. Disse que tinha muita curiosidade no assunto já que tinha deparado com uns livros falando de "astro-biologia". Foi quando Cathérine De Bergh comentou: - Vai haver uma jornada de exobiologia no CNEN no próximo dia 20. Malgrado ouvir pela primeira vez a palavra "exobiologia", percebi imediatamente o significado do nome e mostrei vivo interesse. Cathérine é uma dessas cientistas que aprendi a identificar e respeitar. Trabalhou nos Estados Unidos um bom tempo. Adquiriu um sotaque explêndido, sem aquele traço francês que torna a fala ininteligível (por exemplo, muitos franceses acham que as palavras inglesas de origem latina, que eles acreditam terem sido obtidas da língua deles – o francês, para eles, é a única legítima língua latina –, devem ser pronunciadas de forma francesa), integrou o grupo de desenvolvimento do espectrógrafo Fourier, que obtém espectros de altíssima resolução, e a partir daí soube fazer carreira: mediu abundâncias de elementos primordiais, fez estudos de comportamento de moléculas profundas nos grandes planetas, etc. Ao mesmo tempo, politicamente, cresceu a ponto de integrar as instâncias maiores da política científica francesa: membro permanente do conselho deliberativo do CNRS (o CNPq francês, com muito mais poderes, dinheiro e institutos). Eu não posso dizer que a ascenção política de Cathérine se deve mais a sua personalidade conciliadora e caráter muitas vezes no limite da manipulação, mesmo porque nunca pude acusá-la disso, a doce Cathérine. Não posso acusá-la de nada, porque outra grande cientista francesa com que trabalhei, em termos de personalidade, é seu oposto. Brilhante, cientificamente, a bretã Thérèse Encrenaz é azeda como limão. Fala com muita franqueza e dureza. Pois bem, Thérèse era companheira de Cathérine nos cargos políticos, além de exercer mais alguns cargos executivos.

Mas, voltanto à questão, Cathérine, por conta dos cargos que ocupava, estava sempre bem informada. Ao perceber meu vivo interesse declarou que ia tomar medidas para assegurar minha inscrição na jornada desde que eu prometesse não faltar pois a "fila era grande".

Pois bem, às 9:00 horas do dia 20 de setembro de 1988, estava eu sentado no anfiteatro do magestoso CNEN (Comission Nationale de l'Énergie Nucleaire), perto da estação "Les Halles" do metrô parisiense para assistir à Journée Française de Exobiology. De minha cadeira, levantei somente duas vezes: a primeira, à 12:30 H para comer um sanduiche, e retornar às 13:00 H e às 18:30 H, no final, para ir embora. No interim vibrei intensamente quando a direção do evento decidiu, ao contrário da iniciativa inicial, provomer a publicação dos "proceedings". Afinal, o que estava se dizendo lá, não podia se perder no vento! Tenho tal publicação, e, apesar de obsoleta, guardo-a com muito carinho. Eu nunca tinha ficado "preso" em minha cadeira (verdade que era confortável) para assistir, direto, todas as comunicações com o mesmo interesse. Confesso que nunca mais voltei a fazer isso. Os congressos e eventos são como jogos de futebol: têm momentos que há uma queda no interesse...

A organização da jornada foi assim: todas disciplinas que, de alguma forma, tinham alguma coisa a dizer no que diz respeito ao surgimento da vida, tiveram representantes (de laboratórios franceses) presentes para falar. A idéia era incentivar o surgimento de esforços no sentido de criar essa nova ciência. O debate iniciou com a apresentaçao da representante da astronomia (que, no intervalo, me tratou com indiferença. Achei que fui um "sapo" da Cathérine que ela teve de engolir) que expôs o cenário da formação de poeira cósmica, gerada pela atividade estelar, como o fator essencial para a atividade vital. Além disso, a chuva de intermináveis cometas e asteróides garantiram a existência, na terra, de elementos orgânicos necessários ao surgimento da vida. A água, molécula fundamental em todo esse processo, existe em abundância nos cometas. Na época, por exemplo, ela não tinha a informação das "bactérias" marcianas presentes nos asteróides ou as bactérias nas altas atmosferas terrestres, que sugerem atividade de vida fora da terra. Em seguida, vieram físicos, biólogos, micro-biologistas, químicos, paleontólogos, geólogos, oceanógrafos, enfim, quem tinha alguma coisa a dizer, falou. Ali, fiquei sabendo da conhecida experiência de "Miller", que conseguiu produzir amino-ácidos em um ambiente isolado contendo somente água, cal, enxofre, cloro e sílica, energizados por descargas elétricas (simulando raios). Acompanhei uma viva discussão a respeito da validade acerca dessa experiência (estaria o ambiente contaminado? por que outros não conseguiram reproduzir a experência? por que alguns afirmam ter reproduzido?); assisti a um filme (que vi, depois no Discovery Chanel) sobre os enormes organismos unicelulares nas profundesas abissais do Pacífico; conheci os animais primitivos ainda existentes na costa ocidental da Austrália; acompanhei as descobertas da genética sobre o rastreamento genético dos animais; e por fim, fui informado do "status" dos trabalhos do SETI (sigla, em inglês de Pesquisa por Inteligência ExtraTerrena), quando ouvi pela primeira vez a respeito desse serviço. Soube, então, que o governo americano planejava gastar cerca de 90 milhões de dólares até o ano 2000 nesse projeto. O pesquisador, um astrônomo da "Sociedade Planetária", fundada por Carl Sagan, para angariar recursos para o SETI, disse, em tom jocoso, que ele declarava não ter descoberta para anunciar, pois, "não se esperaria essa jornada" para isso. Ele aproveitou, então, para denunciar a "invasão" de transmissões de rádio na faixa reservada à astronomia.

Foi essa a primeira vez que tive conhecimento da seriedade com que se trata esse assunto. Falo isso em oposição àqueles que acreditam que a astronomia ou os governos guardam "segredos" a respeito. Desde então, tenho afirmado e repetido que a descoberta de vida extra-terrestre (e se for inteligente, mais razão ainda) não será mantida em segredo mais de dois segundos! Quem anunciá-la colocará seu nome na história. E em vista do caráter que tenho observado em meus colegas, fama e eternidade é o que mais nos motiva.

Ficou claro, desde então, a seriedade desse trabalho, pois, hoje em dia, quando a equipe do SETI se instala nos observatórios para trabalhar, o governo americano impõe um silêncio de rádio em um raio de 75 km. E lá tal medida é aplicada de fato, e não "só se a moda pega", como no Brasil.

Deixo registrado aqui a evolução dos conceitos com respeito ao surgimento e manutenção da vida no universo. Antigamente a idéia que mais vigorava era que o surgimento da vida era algo improvável. Cálculos de probabilidades indicavam que teríamos, na melhor das hipóteses, uns cem mil planetas a nos fazer companhia vital no universo. Era muito pouco tendo em vista a quantidade de objetos e imensidão do universo. Com o passar do tempo, a idéia mudou. À época da Journée já havia uma corrente colocando em xeque a linha "pessimista". A essa linha agregava-se o cálculo mostrando que se a terra estivesse 4% mais próxima em sua órbita em torno do sol, ou 3% mais distante, nosso planeta não seria mais do que um deserto estéril. Hoje em dia, em vista do observado nas profundezas dos oceanos, sabemos que, basta a existência de água líquida e os elementos orgânicos para que o surgimento da vida seja um evento altamente provável. Altas temperaturas ajudam, mas não são um fator determinante.

Atualmente a visão corrente é que planetas como Vênus poderiam muito bem possuir vida se não fosse a sua incapacidade, por conta da pequena massa, de reter água em sua superfície e atmosfera. Dada a imensa radiação que ali chega do sol o potencial gravitacional do planeta não é suficiente para reter a água. O caso de Marte é inverso pois, por ter também pequena massa e ser mais distante da terra, presume-se que foi incapaz de manter a água em estado líquido em sua superfície. Há muita esperança a respeito de se encontrar grutas onde, por razão de pressão e efeito estura, a temperatura seja suficiente para manter a água líquida, no interior de Marte, e assim, aumentar as chances de encontrarmos vida.

Quanto aos grandes planetas, a esperança é maior nos satélites naturais destes. Na década de 90 uma engenheira do Laboratório de Jato-propulsão (JPL) na Califórnia descobriu um vulcão em atividade no satélite Europa, de Júpiter. A excitação pela descoberta justificou-se pela esperança de se encontrar vida em tal satélite visto que ele possuir uma grande semelhança na composição química da terra original.

Há algum tempo o Prof. Constantino Tsallis, físico greco-brasileiro, do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas), deu uma palestra para os nossos alunos da Escola "Astronomia no Verão". À parte sua particular capacidade de entusiasmar a platéia, o Prof. Tsallis discorreu sobre interessantes tópicos a respeito das condições físicas para a origem da vida. Apesar de ele mostrar que o princípio que governa o tratamento da matéria exigir que a "vida surja desde que condições gerais sejam favoráveis", há alguma dificuldade em fazer as pesquisas avançarem nesse terreno. Simulações e cálculos teóricos insistem em tornar as condições de surgimento da vida muito especiais. Nas palavras do Prof. Tsallis, "um certo vulcão teria de explodir ao mesmo tempo que um raio deveria cair em certo lugar, que por coincidência teria de ter uma concentração de salitre, etc, etc", enfim, algo como uma "certa cosnpiração cósmica" deveria ocorrer para a que vida aparecesse, mesmo "em ambientes cujas condições ambientais são altamente favoráveis". Para resolver esse aparente paradoxo, o Prof. Tsallis propôs a possibilidade das "reações químicas cruzadas" nos polímeros originais. Em geral, não há dificuldade em gerar ambientes em que polímeros aparecem. Contudo, o aparecimento de cadeias de "RNA", que, por sua vez, se comporão para formar o DNA, base de toda a vida, não se reproduz quando tratamos somente das equações da mecânica estatística ou simulamos as reações com base na mecânica quântica. Os RNA's não aparecem. É o Prof. Tsallis que sugere a solução desse problema quando diz que um polímero pode "reagir com ele mesmo", pois, ao contrário da representação linear deste, sua disposição espacial é retorcida, permitindo, assim, que valências livres se combinem com outras da mesma molécula. Embora alguns físicos desafiem que tal solução seja eficaz (Prof. Tsallis não goza de simpatia em muitos de seus colegas), colocar tal proposta em prática não é tão simples. Enquanto aguardamos album avanço nesse sentido, fica a incômoda posição da prática científica corroborar a antiga mentalidade a respeito da "raridade" da vida no universo.

Ganhou força na década de 80 uma área de discussão que pretendia jogar uma luz a respeito. Na prática, fica o comentário atribuido a Einstein de que "uma nova teoria responde uma questão e coloca mais duas sem resposta". Esse foi o caso do chamado "Princípio Antrópico". Esse instigante tema do debate teórico-filosófico da física acabou por trazer questões ainda mais desconcertantes. O princípio antrópico parte do fato que o universo é "observado", isto é, toda uma discussão é desenvolvida a partir do fato que o "universo possui, pelo menos, um observador". Surgem, então, três possibilidades: a) somos nós, seres humanos, observadores eventuais?; b) o universo, em suas estruturas mais básicas, teria "permitido" a existência desse observador? ou; c) o universo, manifestando-se através de suas principais propriedades seria um universo "pronto" para ser observado, gerando seus próprios observadores? Essas três questões manifestam-se através das três formulações do princípio antrópico: o princípio antrópico fraco, o forte e o muito forte. Vou falar disso, um dia.

Para terminar, ressalto um trabalho apresentado na Journée por um planetólogo do Observatório de Meudon. Ele apresentou um gráfico que mostra a evolução da presença de oxigênio na atmosfera terrestre. Vê-se que o oxigênio molecular começa a se manifestar, embora em baixa concentração, a partir de uns 2 bilhões e 500 milhões de anos após o surgimento da terra, o que confirma a idéia de que a fotossíntese deveria aparecer em torno dessa época. Isso tampouco é incompatível com a idéia de que a vida na terra teria sido extinta em pelo menos umas vinte oportunidades (isto é deduzido a partir de simulações, como aquela que tenta explicar existência da lua. Vamos deixar esse assunto para uma outra vez). De qualquer forma, o que quero ressaltar é que a atmosfera da terra foi, e muito, modificada. A vida tratou de transformá-la. A ponto de, se um dia, por cúmulo da nostalgia, quisermos "devolver a terra às suas características originais", não poderíamos, sob pena de nos extinguirmos todos. Para que a terra fosse capaz de nos acolher, nós, seres do topo da evolução (quero me referir aos mamíferos, animais e vegetais terrestres e outros tantos marítmos), tivemos que contar com um trabalho mais que hercúleo dos seres inferiores.

Nosso tributo a eles.