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OPINIÃO

João Luiz Kohl Moreira

08/10/01


Planetas Terrestres Extrasolares

Com o aparecimentos dos maiores telescópios e sensores ultrasensíveis viabilizou-se a possibilidade observacional de algo antes inimaginado. Em um artigo da revista Nature, três pesquisadores americanos, dois deles do Observatório da Universidade de Princeton e o outro do Instituto de Estudos Avançados, também de Princeton, tratam do problema de se observar planetas parecidos e em situações análogas ao do nosso. Tem sido objeto de discussão a questão de saber se o sistema solar é "universal". Frustrados por não encontrarem evidências de planetas fora do sistema solar os estudiosos de sistemas dinâmicos, sobretudo, se perguntavam se o nosso sistema era um caso particular. Tendo em vista que a maioria dos sistemas dinâmicos apresentam-se em forma de estrelas binárias, ou seja, dotadas de uma companheira, era corrente, na década de 80 os teóricos se perguntarem se o caso do sistema solar, na verdade, era raro.

Estávamos enganados. Desde então, e ultimamente de forma mais intensificada, descobre-se mais e mais sistemas estelares dotados de planetas. As descobertas, em sua maior parte, são feitas espectroscopicamente, detectando-se variações minúsculas – frente às condições de observação – na velocidade radial da estrela através de medidas com base no efeito Doppler. O problema com essa técnica é que o planeta deve ser suficientemente "pesado", o que quer dizer "grande" para provocar o deslocamente da estrela central enquanto se move. Essa técnica permitiu a descoberta de sistemas com a presença de grandes planetas muito perto da estrela central. Para estrelas mais distantes essa técnica também é limitada pois é muito difícil detectar variações mínimas em espectros de estrelas em tempos cuja escala chega a dezena de anos, que é o caso dos planetas distantes. Se ainda pouco abrangente, as descobertas dessa técnica pelo menos permitiu os dinâmicos saberem que nosso sistema solar não é único ou tão raro assim.

Dois projetos estão sendo apresentados e estão sendo analisados pelos autores: o Terrestrial Planet Finder (TPF), e o Darwin Project. O primeiro é americano, e em português quer dizer algo como "Buscador de Planetas Terrestres". O segundo é europeu e seu nome remete aos seus verdadeiros propósitos. Ambos se baseiam spectroscopia e utilizam sofisticadíssimas técnicas interferométricas. Os projetos estão sendo financiados, respectivamente, pela NASA e pela agência espacial européia, ESA.

O primeiro grande problema nesse tipo de pesquisa é a brutal diferença de brilho entre a estrela e o eventual planeta. Estima-se que - se as relações que vigoram lá são semelhantes ao nosso sistema solar - a diferença em magnitude seja da ordem de 25, ou seja, o planeta seria cerca de dez bilhões de vezes menos brilhante que sua estrela. É mais ou menos o mesmo que colocar a estrela Sírius ao lado do sol1. O desafio, em ambos os projetos, é, adotando técnicas interferométricas de interferência destrutiva, abrandar o brilho da estrela principal. As variações no brilho do sistema não são comprometidas e assim serão muito mais facilmente detectadas. Eventuais trânsitos e "eclipses" do eventual planeta com respeito à estrela central podem, então, se revelarem. Estes são os propósitos originais dos dois projetos.

A limitação nesse tipo de observação, além de, é claro, a problemática dos brilhos envolvidos, é que, de todas as possibilidades orbitais, apenas aquelas que estão alinhadas no campo de visada do observador na terra são observáveis. A probabilidade disso acontecer, considerando que não existe plano de órbita privilegiado em nossa galáxia, é de algo como apenas 0,25%. Apesar de parecer um número pequeno, considerando que de cada 1000 estrelas poderemos detectar duas com planetas terrestres, o que temos é uma perspectiva alvissareira.

O que E.B. Ford e colaboradores estudam é a variação de brilho de nosso planeta terra. Para exemplificar eles fazem uma simulação de como varia a luz da terra vista do espaço, considerando alguns elementos distribuidos de forma não uniforme, tais como os oceanos, desertos, região de densa vegetação como a floresta amazônica, nuvens e camadas de gelo, tendo em conta a rotação de nosso planeta. Além disso, pode levar em conta, também, as variações decorrentes das mudanças de estação durante o ano planetário. Um monitoramento, usando-se fotometria absoluta de precisão, poderia ser capaz de captar tais variações. Enfim, considerando um planeta do porte do da terra com ricamente populado com vida em todas as suas manifestações, como a terra, poderíamos identificá-lo observando suas variações de brilho em função de sua rotação e sua translação em torno da estrela. Tais variações podem chegar a 20%. Considerando que o projeto TPF pode detectar variações acima de 5%, a técnica de Ford e colaboradores tem chances de dar certo. Nesse caso a detecção de tal planeta não fica restrita a uma pequena parcela das órbitas possíveis. O planeta pode estar em qualquer órbita. É tão simples que parece o ovo de Colombo. Não é a toa que tais propostas venham do meio acadêmico de Princeton, lá onde Einstein terminou seus dias lecionando e desenvolvendo suas teorias, ou Chandrasekar que também lá se fixou até sua morte, além de ser o lugar de tantos e tantos cérebros famosos.

A implantação de projetos capazes de alcançar êxito nessa empreitada demandam alto investimento. Não somente material como também humano pois envolve pessoal altamente qualificado do ponto de vista científico, técnico e tecnológico. A própria elaboração das idéias que promoveram as inovações tecnológicas dessas sofisticadas técnicas usadas para esse tipo de observação exigiu a pernanência de pessoal cientificamente qualificado e um grupo bem articulado. Tais coisas não são tão freqüentes no Brasil como era esperado ou desejado. Pelo contrário, parece que o mote das mobilizações científicas neste país são para articular desativações de grupos e institutos que muito lutaram para conquistar o que têm. É o caso da assim chamada Comissão Tundisi. Essa comissão mobilizou um razoável número de cientístas cuja ação não foi outra que a de defender a interrupção de linhas de pesquisa, desarticulação de grupos, desativação de institutos etc, com o único fim visível: livrarem-se de concorrentes que tanto lhes atormentam em seus confortáveis cargos universitários.

Se nos Estados Unidos vigorasse esta mentalidade, eles estariam muito mais para aliados de Osama Bin Laden do que para líderes do planeta.


1Poderíamos pensar que isso, de fato, acontece. O sol passa perto de Sírius e de fato, não vemos sinal da estrela. No entanto, temos que pensar que a atmosfera terrestre espalha a luz do sol, tornando-se ela, também, brilhante, ofuscando a visão da estrela. O ideal seria observarmos no espaço, livre da atmosfera da terra. Os astronautas poderiam ter essa visão, mas, eles, também, são desaconselhados a observar perto do sol por causa dos perigos dos raios ultravioletas.