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OPINIÃO

João Luiz Kohl Moreira

17/09/01


O Tempo da Inocência

O recente atentado terrorista contra o World Trade Center e Pentágono gerou um clima que me faz recordar os terríveis tempos da guerra fria. O início da década de 80 foram marcantes para mim. Enquanto pelas bandas daqui respirava-se uma atmosfera de alívio graças ao projeto de anistia, implementado pelo presidente Gen. Figueiredo, pelo mundo, e aqui também, alardeava-se que o poder de destruição que cada superpotência possuia era 1000 (alguns diziam 10.000) vezes capaz destruir a vida humana no planeta. Uma curiosa mistura de sentimentos era experimentada pelos brasileiros mais conscientes da época. Ambos os sentimentos se perderam na história, salvo este que revive, o de apreensão, diria mesmo, o de pavor com as conseqüências desse ato insano.

Mas o que eu quero salientar é que uma área da pesquisa, pelo menos, foi particularmente favorecida pela guerra fria: as ciências espaciais, ou, no jargão antigo, a astronáutica. Não é preciso rememorar que os soviéticos sairam na dianteira, lançando o famoso "sputnik", em outubro de 1957. Eu não tinha idade o bastante para entender o que se passava, mas os relatos do pessoal mais velho dá conta de que uma verdadeira emoção tomou o mundo. Um sentimento generalizado de orgulho, estupefação e esperança tomou conta das pessoas nessa época. Por uns momentos a apreensão cedeu espaço para o otimisto no mundo. Tal sentimento se renovou com os primeiros passos do homem na lua, acompanhados por televisão, via satélite, em todo o mundo em 1969.

O sputnik, uma bola de metal, completando cerca de 15 órbitas por dia enviava um sinal de rádio, se não me engano, de 1.5 kHz. O cientista brasileiro Abraão de Moraes, entre outras coisas, fundador e presidente da Comissão Nacional de Pesquisas Espaciais - hoje INPE, diretor do Instituto Astronômico e Geofísico de São Paulo, catedrático de matemática na USP e Universidade Mackenzie, teve a idéia de colocar um receptor no alto da torre do Observatório de São Paulo para captar os sinais do sputnik. O estudo da variação e modulação do sinal inaugurou, acredito que em sintonia com os maiores centros de pesquisa do mundo, as atividades de geodésia espacial no Brasil. Foram as primeiras iniciativas que, mais tarde, desembocaram no hoje conhecido GPS1. É bem verdade que, mantido em conexão com outros sistemas, o GPS coopera para uma sofisticadíssima rede de interesses militares do Tio Sam, mas é inegável que tal sistema é fundamental para a navegação, hoje em dia, e com uma vantagem. Desde o início da década de 90 os americanos liberaram o uso gratuito de tal serviço.

Quando os americanos se deram conta, com o lançamento do sputnik, imediatamente notaram que ali estava uma questão de armamento estratégico. Então, com o pretexto de suprimir o atraso em relação aos comunistas, os políticos no congresso americano passaram a prestigiar e acompanhar de perto os trabalhos há muito iniciados pelas três armas dos Estados Unidos. Vingou o projeto da ARPA, do exército, pelo simples fato de ter recebido o reforço do pessoal técnico alemão de Werner von Braum, o gênio inventor das bombas V2, que tanto infernizaram os londrinos, no final da 2a guerra2. Esse foi o nascimento da NASA, agência espacial americana. Mesmo assim, muitas tentativas foram feitas e fracassaram espetacularmente com a cobertura completa do rádio e televisão. Diz a lenda, que o locutor de uma rádio tinha lançado a frase: "Atenção russos, aqui vamos nós" quando o foguete se esfacelou diante de si, que ficou mudo de terror (uma leitura interessante a respeito é a do livro de Jimmy Michener, "A Conquista do Espaço", cujo nome da editora, infelizmente me fugiu da lembrança).

A corrida espacial era manifestação de uma outra, esta terrível em suas conseqüências, a corrida dos mísseis intercontinentais. Hoje em dia, tomando conhecimento do que é liberado ao público, tanto dos projetos e medidas estratégicas dos Estados Unidos quanto da ex-União Soviética, vemos o quanto de espetacular em avanço tecnológico foi implementado nesses tempos e percebemos o quão letal foram os objetivos desses avanços. Sabemos igualmente o quanto nós, da humanidade, estivemos perto da destruição total em decorrência de quase mal entendidos que poderiam levar as duas superpotências a iniciar o processo de ataque mútuo.

A nossa salvação deveu-se ao desenvolvimento de uma ciência nova e que hoje está presente nos sistemas de controle de segurança, informação e sensoriamento remoto: a ciência da informação. Trata-se de algo insipiente sobretudo porque ela ainda está presente nos hostes dos serviços de inteligência e contra espionagem nacionais e industriais. Se fosse "liberada", contudo, serviria enormemente para o desenvolvimento das ciências, sendo estas, eminentemente públicas. No entanto, em vista de como caminham as coisas parece que teremos esperar um pouco mais pela divulgação dos tópicos avançados dessa teoria.

Além disso, sem contar a parte "visível" dos avanços decorrentes da corrida espacial (materiais como o teflon, cerâmicas, ligas de metais, etc.), é extraordinário - a despeito de não tão bem divulgado – o avanço da matemática, estatística, mecânica celeste, planetologia, astronomia fundamental, astrofísica, cosmologia, física, biologia, etc, etc. E mesmo que apavorados, àquela época, vivíamos com a esperança de que aqueles que comandavam os exércitos munidos dessas maravilhas da destruição mantivessem o bom senso a cada momento e na hora "H", refletindo e agindo civilizadamente no sentido de evitar uma carnificina.

Esse não parece mais ser o caso. A sensatez cedeu espaço para o delírio fanático, a civilidade, para a esquizofrenia fundamentalista. Os excluídos sentem-se no direito de usar seus agentes destrutivos para impor a sua ordem. A vingança parece ser o mote dos atos das partes conflitantes. Já não há mais espaço para o conflito de idéias, para a luta ideológica, quando, ao final podia-se contar com o sentimento humano dos responsáveis.

Mesmo sob o espectro da destruição total, naquele tempo da guerra fria, vivíamos um tempo de inocência. E nem nos dávamos conta disso.


1Global Positioning System, desenvolvido e mantido pelos americanos, permite a localização e determinação da hora com precisão.

2Conta a História que Hitler planejava enviar essas bombas, ou as V3's, a Nova York, esperando produzir forte impacto na nação americana. Que triste coincidência tal feito ter se concretizado no nascer do século XXI!