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OPINIÃO

João Luiz Kohl Moreira

30/07/01


A Internet na Astronomia.

A Internet, finalmente, deixou de ser considerada uma "novidade" a ser vendida e entrou na lista do sonho de consumo do "pacato" cidadão. Para o pesar dos "gurus" de Rochester (no alto do altar, o Sr. Bill Gates "a tudo velar") que queriam, eles, impor seu padrão para a rede. Felizmente isso não aconteceu. Já pensou a Internet a se juntar à Janela-98, ou ao que quer que venha a seguir, nas operações ilegais? Provavelmente você não estaria lendo essas linhas. O autor, definitivamente, não se adapta à cultura do "tio Bill".

A razão para esse "desajuste" vem de minha formação em informática. Vou poupar o leitor com histórias bobas como "a primeira vez que sentei diante de uma perfuradora de cartões (sim, isso fazia parte da informática)", ou "quando tive a idéia que poderia controlar meus 'jobs' diante de uma tela e um teclado" (na época bem que acharam essa idéia estranha, e me lembro como o "CPD" chegou a tomar medidas "duras" para forçar o pessoal a abandonar os cartões perfurados e usar fitas magnéticas). Não estou aqui para desaguar minhas nostálgicas lembranças. Vou contar minha história a partir do momento em que, pela primeira vez, ocorreu-me que alguém, através de um computador, pode se comunicar com outro, em outro computador, distante de você.

Estava eu diante de um terminal VT100, da Digital Inc., conectado ao VAX 4xxx do Service Informatique do Observatório de Meudon, um resort do Observatório de Paris, França. Verdade era que só o departamento que estava lotado o DESPA (Département des Recherches Spatiales) tinha quase 200 astrônomos, ou seja, mais até que o próprio Observatório de Paris, mas a tradição, e os franceses são apegados à tradição, mandava que o Observatório de Paris devia centralizar a administração. Mas, voltando ao assunto, estava eu, num sábado de manhã, trabalhando no Observatório de Paris, dando continuidade ao meu longo doutorado (que tinha iniciado aqui no O.N., e que terminei por concluí-lo aqui mesmo). Eu já sabia que podia submeter batchs em computadores externos, remotamente, não sem uma certa surpresa. Eu tinha me acostumado a trabalhar em terminais TTY, remotamente, pois do O.N. eu podia operar um IBM instalado no Laboratório de Computação Científica, do CBPF (mais tarde o LCC virou LNCC e tornou-se independente do CBPF). Mas, ainda assim, era teminal - mainframe. Operar um computador em Estrasburgo, um Cray, a partir de um terminal de um outro computador, o VAX 4xxx era algo que eu desconhecia. Quando me propuseram essa operação, após ter "alugado" o VAX por mais de quatro horas em um cálculo de minimização (steepest descent), após uns minutos para "me dar conta", fiquei com uma sensação tipo "isso é que é progresso".

Retomando novamente: cena 1, estou numa fria manhã de outono do ano de 1987, sozinho, trabalhando tranqüilamente, operando o, na época, mais espetacular sistema operacional até então inventado: o VMS (Virtual Machine System) da Digital. Eis que recebo uma mensagem na tela que alguém estava querendo um talk. Esse sistema, eu conhecia. Você fazia talk e o nome para comunicar-se com alguém. Ainda hoje esse sistema existe sob o UNIX/LINUX, embora pouco usado. Respondo ao chamado e vejo a tela dividida em dois, a parte de baixo para o interlocutor, a parte de cima, para ver o que escrevemos.

Meu interlocutor, expressou-se com palavras cortadas, erradas, e em baixíssima velocidade. Perguntou por uma pessoa conhecida, um rádio-astrônomo dos mais atuantes. "Por que o cara não procura ele mesmo, já que está aqui?" pergunto-me. Além do mais, eram tantos erros de digitação! O nome do meu interlocutor era bem francês, não podia cometer tantos erros em sua própria língua. Comentei isso com ele. Disse que estava recebendo pessimamente. Sua resposta foi: "É que estou no JPL, Califórnia". Aí está a surpresa! De repente, me dei conta que o meu interlocutor, de um computador na Califórnia, entra em sua conta no VAX de Meudon e aí trava contato comigo. Por que isso não me ocorreu antes? Esse foi o meu insight com respeito à rede. Ainda não era Internet.

A Internet foi liberada para a comunidade acadêmica americana em 1982. Paralelamente, a IBM e a Digital lançaram suas redes mundiais de computadores apostando em suas próprias tecnologias. Assim foi sempre: a cada nova tecnologia na informática as grandes empresas sempre tentaram impor seus padrões. No caso da Digital, sua rede chamava-se SPAN. Não sei se ela ainda existe. O que sei é que os europeus, com sua mania de procurar sempre soluções alternativas, mesmo que sejam, também, americanas, adotaram o SPAN. Lembro-me que, depois de reuniões entre os bã-bã-bãs da Europa toda, lançou-se o sistema de e-mails EARN, cujo manual ainda tenho em algum lugar. Era a resposta à BITNET, uma das muitas arquiteturas que se criou embaixo da Internet, e que foi uma das primeiras a se instalar no Brasil. O endereço de alguém era do tipo: alguém::XXXXX, onde o "XXXXX" era um número atribuido pela Digital e que era único, supostamente. Mais próximo da Internet, um endereço BITNET era do tipo alguém@brNNNN.bitnet, onde "NNNN" era o nome do "domínio", por exemplo, o meu endereço era: oat3@brlncc.bitnet. A razão de eu me chamar "oat3" é desconhecida por mim até hoje. Um dia me explicaram que era porque eu estava inscrito sob o projeto do Sol (??).

Muitos acreditam que a Internet promoveu uma revolução nos hábitos e costumes das pessoas. Pois eu digo que isso não foi nada perto do que ela causou nas áreas acadêmicas. No sentido puramente marxista do termo, a Internet representou uma radical mudança no modo de produção científica. Essa mudança no modo de produção modificou completamente as relações de trabalho. Antes da Internet havia um enorme abismo entre a produção científica nos diferentes países. Era comum o professor - pesquisador dar um pulo em laboratórios do primeiro mundo por uns tempos "para ganhar fôlego", reciclar-se, "recarregar" as baterias. Nossa dependência com o que se fazia lá fora era muito maior. Os financiamentos para participação em congressos internacionais eram (e ainda são) feitos com base no currículo do pretendente. Mal sabiam (e pelo visto, ainda mal sabem) os burocratas de Brasília (com a anuência dos pesquisadores que não querem perder o maná) que o a participação em fóruns internacionais é imprescindível para o estudante, enquanto que para o pesquisador experimentado ele é "muito importante". Portanto, o contato com o mundo exterior, e mais, com o mundo eficiente era, praticamente, inexistente.

Ter acesso ao que está sendo feito nos grandes centros de pesquisa era um privilégio de quem tinha acabado de chegar de um doutorado, ou mesmo, um "pós-doc" (sim, porque ano sabático ainda soa como palavrão na Tupiniquinlândia). Às nossas bibliotecas as grandes revistas científicas chegavam com grande atraso, quando chegavam, pois não era raro (e ainda não é) as verbas para renovação de assinatura atrasarem por conta de negociação no congresso ou por miopia de algum burocrata de Brasília. A submissão de artigos, por sua vez, ganhava uma pitada de paranóia entre nossos pares. Era um tal de "ouvi dizer que fulano foi roubado pelo referee, que segurou seu trabalho até ter tempo de terminar sua própria pesquisa..."

Hoje em dia essa quadro está completamente mudado. Se você tem uma idéia, desenvolva e envie-a a um "guru" do assunto. A autenticação do e-mail (que deixa rastro pelos diversos servidores por onde passa) impede do eventual mal - caráter venha com segundas intenções. Afinal, o mito do "roubo" não passava de uma paranóia, o que a Internet ajudou a anular. O sujeito lê e se a idéia é boa, via de regra ele pede permissão para desenvolver o assunto e produzir uma publicação conjunta, no que você dá um pulo e grita "yes!". Para ele é mais fácil porque aproveita o que você já fez, acrescenta seu "saber" e faz publicar em uma revista conceituada. Você ganha uns pontinhos, enquanto ganha tempo para alçar, você também, esse saber. É claro que esse é um quadro simplificado, mas serve para mostrar a mudança do "status quo" da ciência no Brasil.

No início da década de 90 no SISSA de Triete, Itália, um estudante apresentou o "Babbage", homenagem ao físico inglês, como final de seu trabalho de doutorado. "Babbage" é um sistema de banco de dados de publicações. Sua ambição era tornar-se um jornal eletrônico, sem filtro editorial. Hoje em dia, diríamos que um jornal eletrônico está mais perto da versão on line do Astrophsical Journal, Astronomical Journal e similares. Como banco de dados o modelo mais representativo é o Abstract and Article Service do Astrophysical Data System (ADS) do qual o O.N. possui um espelho. Mas o grande charme do "Babbage", que os astrônomos se referem como "astro-ph" é a sua transparência. Qualquer um pode colocar o que quer que seja ali, desde que conforme aos padrôes de submissão eletrônica e esteja minimamente relacionado ao assunto (são vários campos da física). Como resultado, é comum o pesquisador colocar ali o seu pré-print enquanto aguarda publicação, e até julgamento, nas revistas tradicionais. Via de regra, grandes nomes nos seus assuntos costumam publicar no astro-ph textos de palestras nos diversos centros, invited paper em congressos, ou até cursos em universidades.

Hoje em dia, é claro, o acesso ao "Babbage" é via "WEB" No início, contudo, você se inscrevia num mailing list o que lhe dava o direito a receber, diariamente, a lista das publicações mais recentes. Um dos grandes trunfos do astro-ph é a simplicidade de referência, ex.: astro-ph0199024. Isso quer dizer que o artigo está na base "astro-ph", é o artigo número 024 do mes 01 de 1999. Na verdade, o sistema, desenvolvido em um VAX, sob o VMS é uma combinação de filtro de e-mail com mala direta eletrônica. Simples, não? Precisava, antes, ser inventado. Faz parte da rotina de muita gente (além de consultar as páginas de editais do CNPq, e suas respectivas FAs), consultar a página das publicações mais recentes do astro-ph. Hoje em dia o "Babbage" possui vários espelhos espalhados pelo mundo. No Brasil o espelho mais conhecido é o do Instituto de Física da USP.

Tudo isso nos faz concluir que a Internet promoveu foi uma radical aproximação de nossa ciência com a ciência internacional. Hoje o cientista brasileiro ousa mais, se expõe mais, até redige melhor em inglês. Na astronomia, em particular, o manancial de informação, dados observacionais brutos ou tratados é monumental. Tudo isso disponível na rede.

Por isso, quando me falam dos e-bizz, chats, casamentos, jogos, script-boys, etc, eu, cá, rio com meus botões: revolução da Internet aconteceu mesmo na década de 80, início da de 90. E foi no meio acadêmico. Depois, o que veio foi confete.