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OPINIÃO

João Luiz Kohl Moreira

23/07/01


Para que serve a astronomia?

Mais propriamente, a pergunta deve ser estendida a todas as ciências, em princípio. Isso porque eu não vejo sentido em dizer: a biologia molecular é mais "útil" do que a astronomia, ou mesmo, a arqueologia, ou física de partículas. Para entronizar melhor o assunto, parto para o resgate do sentido histórico da ciência, isto é, como esta foi tratada e qual o seu status no percorrer da história da civilização ocidental.

Desde os gregos até pouco além do renascimento a atuação científica era levada pelos filósofos. Estes dedicavam-se a uma porção de tarefas de pensar a ética, a política, a essência do ser e a natureza. Era uma atividade adicional pensar sobre a natureza. Não necessariamente o pensar a natureza estava relacionado com a observação empírica, coisa que foi introduzida somente no fim da idade média com Bacon e Descartes. Mas nem por isso, os filósofos da natureza se negavam à observação pura e simples. Haja visto que a astronomia é a única ciência a possuir sua musa, a Urânia, figura presente em vitrais nos tradicionais prédios de observatórios espalhados pelo mundo. Mesmo sem o conceito de ciência dos tempos modernos, os gregos, com sua mitologia já intuiam o papel da astronomia como ciência: era a única atividade em que o "artesão" tinha o mesmo status do filósofo, pois a astronomia, mesmo profundamente marcada pelas crenças astrológicas, dependia das "observações" para determinar suas conclusões. A notar, também, que os gregos também intuiram a utilidade da ciência aplicada. Basta lembrar da "surra" que Arquimedes propiciou aos defensores de sua cidade, Siracusa, na Sicília, sobre os romanos, que a assediavam. Foi com base em seus estudos de óptica que Arquimedes projetou e construiu enormes espelhos côncavos que foram usados para tacar fogo nas galeras romanas fazendo projetar o sol sobre suas velas. Isto para falar só de uma de suas invenções de defesa.

A Idade Média foi um período de marasmo científico, sobretudo no seu início. Deve-se notar que era a primeira vez, pelo que eu saiba, que foi introduzido o pensamento integrista, muito próximo daquilo que entendemos por xiismo, hoje em dia. De certa forma, creio que o tal xiismo é uma forma de pensar e agir adquirida dos cristãos da Idade Média, sobretudo dos cruzados. Mas, voltando à ciência, os pensadores cristãos da Idade Média pouco se importavam com o comportamento da natureza, salvo como acessório ou como ilustração da fé. Mesmo os pensadores escolásticos, baseados nos pensamentos de São Tomas de Aquino, tentaram adaptar o legado de Aristóteles na filosofia ao pensamento cristão, e mesmo assim, cá para nós, foi para não ficar atrás dos mulçumanos que já tinham descoberto aquele que é considerado um dos maiores gênios da antigüidade. Duvida? Basta ver que os primeiros escritos de Aristóteles traduzidos para o latim foram feitos a partir do ... árabe! Não existe desculpa. Afinal, os textos dos apóstolos foram escritos em grego. Por que não aproveitar a oportunidade? Mas não façamos injustiças com os físicos da idade média. Eles bem que tentavam entender o que era velocidade, por exemplo, sob a luz (ou penumbra) do debate sobre o paradoxo de Aquiles, assunto que vou usar para ocupar o seu tempo em outra oportunidade. Não é difícil ver que pouco avançaram. Pelo menos eles esgotaram o assunto, poupando-nos de uma série de discussões fadadas a cair no vazio. Dizem até que os jesuitas estavam avançando bem na chamada ciência empírica, e que, se não fosse Galileu, com sua arrogância e radicalismo... Ora, vejam, não levar em conta os radicais! É estar condenado, mesmo!

Já no tempo de Galileu e até o início da 1a Grande Guerra a ciência era sustentada pelos nobres ou burgueses em ascenção, procurando integração nas rodas aristocráticas. Visto que fazer ciência requeria não tanto talento quanto fazer música, poesia ou belas artes, a ciência foi praticada principalmente por nobres, ricos e, pasmem, clérigos. Exemplo disso era o próprio Nobel, que deixou sua fortuna para os que o seguissem na nobre atividade científica. Epa! Digamos que era uma pretensão do sr. Nobel que, além de dar o nome ao prêmio mais cobiçado pelos cientistas "geniais", notabilizou-se apenas por inventar a dinamite e se dizer inventor da pólvora, que por sinal já era conhecida dos chineses há milhares de anos. Diga-se de passagem que na época da "invenção" do sr. Nobel os europeus já se prestavam à prática de pilhar os povos orientais. De qualquer forma, sustentar, ou fazer ciência para os nobres era um atitude "de bem". Era mais ou menos, como é hoje, os grandes esportistas apoiarem creches de crianças escepcionais, ou artistas sendo embaixadores da paz, das crianças. Dar sustentação à ciência seria o mesmo que dar, hoje, donativos para as ONGs espalhadas por aí. Quem diria, heim? Antes, os artistas eram "sustentados". Hoje, são eles que sustentam. Já os cientistas, ainda aguardam a inversão das coisas. No início do século XX ainda existiam sociedades mantidas por nobres que reuniam grandes cientistas da época para serões onde discutiam as últimas descobertas, para o deleite de seus mecenas. A título de anedota, lembro uma sociedade dessas, mantida por um marquês alemão, que acolhia nomes do peso de um Max Plank, em caloroso debate se deviam ou não aceitar em seus hostes um certo Albert Einstein. "Não é porque esse talentoso e promissor físico se prestou a divulgar essas bobagens de teoria da relatividade que vamos condená-lo eternamente", teria dito Plank, em sua defesa.

Como bem observou o Prof. Longo, nosso diretor, em sua palestra no Observatório Nacional, o final do século XIX, e início do XX, foi marcado pela transformação do saber científico em algo "útil", isto é, usado para produzir bens de consumo. Assim o fez Thomas Edson, Graham Bell e outros. Desde então, não se parou mais. Energia atômica, indústria farmaceutica, laser, transistor, computadores, enfim, quase tudo que marcou o século XX e ainda nos marca cada vez mais fundo vem, de alguma forma, da ciência. Inclusive os nefastos regimes nazi-facista e stanilista sustentaram-se em pressupostos científicos. Essa memória fica aí para mostrar que a ciência está para o bem e para o mal. Depende das intensões políticas.

Por falar em política, foi dos políticos que veio a idéia de inverter o sentido de "aproveitar a ciência para a sociedade de consumo" para "sustentar apenas a ciência que pode produzir algum bem de consumo". Avançaria mais em dizendo que tal maneira de pensar tem muito eco entre os políticos "progressitas". Isso tem implicações letais. De um momento para outro o estudioso dos fósseis jurássicos, das estrelas, do sânscrito é colocado na berlinda dos políticos ávidos em acusá-lo do diletantismo de estudar coisas sem qualquer utilidade num país com tanta fome e miséria. Quando digo político não me refiro apenas àqueles que se prestam aos grandes debates da nação, em Brasília. Nem aos nobres representantes do povo das egrégias casas legislativas espalhadas pelo Brasil. Refiro-me também àqueles que, de uma forma ou de outra, pedem a Nosso Senhor, na cama, antes de dormir, "paz e prosperidade na terra, aos homens de boa vontade", isto é, refiro-me a todos nós. De chofre somos atacados com uma enxurrada de notícias científicas, tipo "descoberta de uma nova forma de sinapse em salamandras aquáticas", "que poderá será muito útil para a descoberta da cura do mal de Parkinson". Sabe por que essa "previsão"? Porque o reporter - que aprendeu dentro da redação - perguntou: "E para que serve a sua pesquisa"? Bela questão: "para que serve a sua ciência"? Isso não nos ensinaram na escola. Temos que pensar rápido. Nos preparamos para tudo, menos para essa. Para mim, essa pergunta equivale a: "como é que você se sente nesse momento em que soube que sua mãe está morta"? Sou capaz de apostar que ninguém, nem em um lapso ínfimo de segundo, tenha pensado numa resposta para isso. Recentemente um ex-ministro da Ciência e Tecnologia, notabilizado por ter mais ligações com o presidente do que com a área, aconselhou físicos e astônomos a "desenvolverem pesquisas em biologia molecular". Assim, num estalar de dedos passamos a desenvolver pesquisa em algo que os mais talentosos no assunto tomaram anos para aprender. Como se fosse uma troca de aplicação financeira. Tiramos o dinheiro do fundo de ações e aplicamos em renda fixa! Para o referido ministro, mais versado nesses assuntos, a questão reduzia-se a isso!

A pergunta: "Para que serve?" parece fazer parte da chamada formação do jornalista "científico". Difere da formação do dito jornalista esportivo. Não ocorre ao ditoso reporter perguntar a Romário para que serviu o último gol que ele fez no campeonato brasileiro. Nem ao comentarista de novela, perguntar como a performance de Luana Piovani pode ajudar as criancinhas do nordeste a vencerem a esquitossomose. Mesmo se um Denílson da vida faça questão de enfatizar que o importante é trazer a alegria e orgulho para a torcida brasileira e, provavelmente, Luana mantenha, secretamente, um lar de crianças aidéticas.

"Mas vocês tomam dinheiro público" (pronuncie o "público" com a boca cheia de saliva, para poder cuspir e pronunciar a palavra de forma "cheia"), dirá o político, seja ele um deputado, promotor ou mesmo um leitor de jornal nos domingos de manhã. Mesmo? E o que se dirá das rendas dos estádios? E das multiplicações de vendas dos produtos anunciados no horário nobre? Não seria honesto avisar, como nas propagandas de bebida ou cigarro, da inutilidade da novela? Imaginem o serviço autofalante no Maracanã: "A SUDERJ informa: não haverá qualquer ressarcimento em caso de derrota de seu time". Ou então, antes da novela mexicana: "O Ministério das Comunicações adverte: o consumo exagerado pode embotar a cabeça dos desavisados".

O melhor seria se nos deixassem em paz. Que todos voltassem a ver o cientista na mesma posição do escultor ou músico. Que a sociedade resgatasse o exclusivo conteúdo cultural, da diletante curiosidade de saber mais sobre as coisas. Talvez isso finalmente nos forçasse a voltar àquela porção da aristocracia que ainda não desmoronou totalmente e reivindicar aquela antiga boa vontade. Éramos felizes e não sabíamos. Aliás, nunca a ciência, e em particular a astronomia, foi tão incentivada no Brasil, quanto no segundo Império. Nunca a ciência foi tão escorraçada quanto nos governos "progressistas" da antiga e nova República. Nunca a ciência tradicional no Rio de Janeiro foi tão desprezada quanto nas gestões de um certo governador que promoveu a secretário onipotente uma de nossas maiores cabeças progressistas.

Não é à toa que sou monarquista.